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Reflexões sobre o método BDA

Reflexão sobre o método BDA

Brincadeira de Angola é um método para a prática pedagógica da Capoeira, que toma por princípio o caráter lúdico da Capoeira Angola.
A equipe Brincadeira de Angola é formada por professores especializados no ensino infantil de Capoeira, com praticantes das áreas de pedagogia, medicina, fisioterapia, primeiros socorros, psicomotricidade, educação física, psicologia, música, teatro, circo e arte-educação. É neste ambiente interdisciplinar que se planejam os projetos educacionais aplicados, desde 1988, em diversas instituições escolares no Rio de Janeiro.

O método Brincadeira de Angola surge em resposta a necessidade de se criar uma organização dos conhecimentos aplicados nas aulas de capoeira infantil, suprindo uma lacuna no fazer  pedagógico, ao embasar profissionais para a plena utilização do potencial educacional da capoeira.

A base do método são os conhecimentos ancestrais da capoeira,  passados de mestres a  discípulos  de forma tradicional. Equilibrando estes saberes populares com os conhecimentos acadêmicos, Brincadeira de Angola sugere uma pedagogia que leve em conta o que distingue esta arte de outros campos do saber: uma Pedagogia da Capoeira.

O método se fundamenta em quatro princípios:

 

Naturalidade

PRINCIPIO DA NATURALIDADE DO MOVIMENTO:

A capoeira possibilita às crianças a partir de um ano de idade um reencontro com posições corporais naturais `a motricidade humana: rastejar, acocorar, engatinhar ou andar nos quatro apoios.O ensino da capoeira deve ser pautado pela compreensão de que quanto mais natural for o movimento, mais acessível, inteligente e prazeroso ele será para a criança.
Observando o jogo de Capoeira Angola de mestres como João Pequeno, impressiona a simplicidade dos movimentos utilizados e a ausência de estresse muscular, em posições corporais naturais ao corpo humano, como queda-de-quatro, cocorinha, rabo-de-arraia etc. A Capoeira Angola, praticada desta forma, é a base da simplicidade do método BRINCADEIRA DE ANGOLA para crianças a partir de um ano. A maioria das crianças nesta idade já dominou os 5 estágios necessários para se mover com um repertório corporal similar ao utilizado pelo mestre João Pequeno e outros grandes mestres de capoeira angola, que sabiamente chegam a uma idade avançada, ainda brincando capoeira.
Relacionamos estes estágios com o mundo animal:

Fase1 Animais aquáticos
Nesta fase, acompanhamos os primeiros movimentos que a criança utilizou em seu desenvolvimento no meio aquático uterino: contração e expansão.
Preservar estes movimentos é essencial para a saúde corporal e para isso utilizamos materiais simples como colchões ou rolos de espuma, auxiliando as crianças a realizar rolamentos laterais ou frontais, como cambalhotas. Futuramente estes movimentos darão lugar a formas mais elaboradas de contração e expansão, como queda-de-rim.

Fase2- Réptil
O arrastar é a próxima fase no desenvolvimento motor da criança, quando ela realiza movimentos de oposição entre braços e pernas para se locomover. Trabalhamos esta fase incentivando a criança a arrastar-se sobre rampas e colchões, preservando o movimento natural que futuramente será utilizado no jogo de chão da capoeira, como na “tesoura de angola”.

Fase3 -  Quadrúpede
O andar em quatro apoios é crucial para a saúde da coluna vertebral, pois é nesta fase que se definem as curvaturas lombares e cervicais. Nas aulas de capoeira, o professor pode utilizar jogos com animais para se trabalhar este movimento.

Fase4 — Símios
O acocorar confortavelmente, com a planta dos pés completamente chapadas no chão, é um dos movimentos mais preciosos no repertorio corporal humano e, infelizmente, devido ao mau uso de cadeiras e outros apetrechos modernos, extremamente árduo para adultos com encurtamentos musculares. Estes mesmos adultos que hoje não conseguem fazer uma simples cocorinha (mesmo que consigam fazer um mortal parafuso), perderam algo valioso no caminho: a naturalidade do movimento.
A evolução natural do movimento passa necessariamente do acocorar para o ficar de pé, ou seja, toda criança com desenvolvimento saudável, ira equlibrar-se primeiro de cócoras, para depois se levantar.
Nas aulas de capoeira é possível intervir precocemente para a manutenção deste precioso movimento, nossa cocorinha.

Fase5 — Eretibilidade
Em torno de um ano de idade a criança já se levanta e ensaia o seu futuro andar, que será dominado quando a oposição entre o movimento dos braços e das pernas for alcançado. Se simplesmente o professor de capoeira tocar seu berimbau e deixar a criança dançar livremente, sem apresentar modelos predeterminados de ginga, ele verá o nascimento de uma ginga espontânea, criativa e natural ao corpo da criança.

Criatividade

Princípio da Criatividade

Na capoeira podemos estimular essa qualidade, utilizando o corpo e a música.

Na música, é essencial que se usem instrumentos apropriados aos pequenos e que se toquem música ao vivo durante as aulas. O fazer musical, por parte das crianças, deve ser iniciado de uma forma espontânea, despadronizada, baseada na pesquisa sonora improvisada. Posteriormente, pode-se seguir em frente para o ensino de padrões musicais específicos da capoeira, desenvolvendo conceitos musicais básicos, como intensidade, timbre, altura etc.

O corpo, seguindo a tradição africana, deve ser trabalhado simultaneamente ao aprendizado da técnica dos instrumentos musicais da capoeira, ou seja, devemos pensar musicalmente com o corpo. Para as crianças a partir de sete anos, sugerimos aos professores o estudo do método O Passo .
No ensino de movimentos, deve-se seguir o princípio do falar o que fazer, ao invés de  mostrar como fazer. Em lugar de ensinar seqüências e movimentos fixos, devemos nos ater em fornecer modelos e regras gerais, a partir dos quais cada criança pode desenvolver, de forma autônoma, a sua própria interpretação da Capoeira.
Mensagens amplas, como: “passar o pé”, “passar por baixo”, “rodar” são interpretadas de maneira muito pessoal, auxiliando no desenvolvimento de um repertório corporal individual. Dessa forma, a cada aula, um golpe como o rabo-de-arraia pode ser  “inventado”, “descoberto”, por uma criança.
Sugerimos a leitura da obra de Peter Slade sobre o Jogo Dramático Infantil.

A autonomia deve ser o fim de qualquer trabalho educativo e o ensino da capoeira deve ser uma ferramenta para a construção desta autonomia.
A criatividade é, por um lado, resultado da autonomia, e por outro, condição imprescindível para a construção de conhecimentos significativos por parte dos educandos.

Cooperatividade

Princípio da cooperatividade

Capoeira é necessariamente uma arte social. Os jogadores, os músicos, os componentes da roda e o público são todos atores sociais participantes. As crianças se alternam em todos estes papéis, interpretando em grupo um pequeno teatro social.

Capoeira para crianças é, portanto, uma atividade inclusiva por excelência. Por esta razão, é essencial que se trabalhem nas aulas a união e cooperação do grupo, de forma a incluir os alunos sem exceção.

A cooperação é uma característica básica da capoeira e o que a diferencia de outras artes marciais. Por este motivo os jogos cooperativos são parte componente do método Brincadeira de Angola.

Sugerimos aos interessados em jogos cooperativos a leitura das obras do canadense Terry Orlick e do brasileiro Fábio Otuzi Brotto.

 

Princípio da historicidade

A Capoeira é uma arte com histórico de resistência cultural. O ensino da capoeira, portanto,deve levar em conta seu contexto histórico-cultural.  Os elementos componentes da cultura brasileira devem ser trabalhados com vistas à afirmação positiva das diferenças e ao fortalecimento da auto-estima dos educandos “afro-índio-euro-brasileiros”.

As músicas da capoeira são uma verdadeira biblioteca oral. Elas devem ser pensadas e reproduzidas criticamente, perpetuando saberes, mitos, ritos e valores históricos caros a cultura popular.

É importante que seja passado ao educando que ele é um novo elo numa corrente histórica, que envolve personagens, capoeiras e Mestres como Zumbi, Besouro, Pastinha e Bimba.

Junto a transmissão desses conhecimentos, cabe ao professor de capoeira ser politicamente comprometido, procurando em suas aulas, a partir do caráter multiétnico e ecumênico da capoeiragem, combater qualquer tipo de discriminação.

Sugerimos a leitura das obras de Paulo Freire, Muniz Sodré e Emilia Viotti Costa