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A capoeira como prática educativa transformadora

A capoeira como prática educativa transformadora
Omri “Ferradura” Breda

Este texto foi selecionado para representar a capoeira no campo da educação, pelo governo do Rio de Janeiro: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao_fisica/0009.html

Introdução

Atualmente a necessidade da manutenção de nossos valores culturais identitários se constitui emergência social. Em tempos de globalização orientada por uma cultura hegemônica, o consumismo e o individualismo vêm se apresentando como únicas alternativas à falta de referências. Conscientes desses fatos, educadores populares em todo o Brasil empenham-se em desenvolver projetos voltados a uma educação pluriétnica, com vistas à afirmação positiva das diferenças e ao fortalecimento da autoestima dos educandos “afro-índio-euro-brasileiros”.

Entretanto, esses educadores carecem muitas vezes de subsídios para o entendimento consciente dos modos de vida na África pré-colonial, da dimensão histórico-social da escravidão, do papel do afrodescendente nas lutas pela liberdade no Brasil e da função emancipadora da cultura brasileira. Em contrapartida, professores universitários tampouco dominam esses conteúdos, e a eles ainda falta o conhecimento empírico tradicional. Esse fato se dá por uma razão: os próprios educadores foram submetidos, ao longo de sua formação, a um ensino que nega e distorce sua história e restringe o seu acesso a fontes mais profundas de pesquisa e conhecimento.

A Capoeira é uma arte com histórico de lutas pela emancipação negra, o que a legitima como uma manifestação cultural libertária por excelência. Atualmente é reconhecida como ferramenta educativa em ambientes formais e não formais.

O trabalho visa caracterizar a capoeira como prática transformadora na formação de educadores democráticos. Nesse sentido, tendo em vista o ensino socialmente comprometido, consciente e historicamente embasado da Capoeira, recorremos aos estudos de Emília Viotti Costa, Paulo Freire, Ricardo Franklin Ferreira e Muniz Sodré, entre outros, para a fundamentação teórica. As observações pessoais específicas à prática docente são baseadas em minha própria experiência de professor-pesquisador de capoeira.

Concluímos que o ensino tradicional da capoeira, aliado a conhecimentos acadêmicos, tem potencializado seu caráter transformador como prática pedagógica e política e se constitui em poderosa ferramenta educativa para a escola brasileira.

O tema aqui apresentado tem sua relevância afirmada ao levarmos em conta a urgência social da manutenção de nossos valores culturais identitários em práticas educativas que contribuam para o desenvolvimento de cidadãos politicamente conscientes e críticos.

Para que essa meta seja alcançada se faz necessário um trabalho de conscientização para os educadores populares e acadêmicos. A capoeira, para milhares de crianças, jovens e adultos no Brasil, é a primeira e, para muitos, a única fonte de contato com a história do negro apresentada de forma positiva. No entanto, sua transmissão muitas vezes não alcança todo seu potencial social, pois a maior parte dos professores tem um conhecimento restrito, difuso e muitas vezes ingênuo e estereotipado da história do negro no Brasil, na África e na diáspora.

A Capoeira é uma arte com histórico de lutas pela emancipação negra, o que a legitima como uma manifestação cultural libertária por excelência. Enquanto prática educativa, é nítida sua relevância quando observada a abrangência nacional que alcança, a inserção em todos os níveis sociais e sua adoção pelas instituições educativas, da Educação Infantil ao Ensino Superior.

Metodologia

Um dos marcos teóricos é a teoria do capital, de Bourdieu, aliado a pesquisas sobre o conceito de identidade e o papel da capoeira na construção desta, tanto no campo individual quanto na formação de uma identidade nacional.

Objetivos

  • Apresentar o fenômeno da capoeira como prática transformadora, contribuindo para o fortalecimento da autoestima do praticante a partir da perspectiva de pertencimento e domínio de uma arte ligada à ancestralidade africana, à identidade nacional e valorizada pela comunidade internacional.
  • Embasar a prática dos educadores culturais e universitários com conhecimentos acadêmicos atuais, com vistas a torná-la mais eficaz, apta a cumprir com sua função social.
  • Demonstrar como a Capoeira pode ser uma alternativa de vida para o afrodescendente, política, financeira e culturalmente falando, dotando o praticante de capital cultural, simbólico e econômico.

Teoria do capital

A teoria do capital, de Bourdieu, permite tecer relações analíticas com a capoeira. Conforme o pensamento de Bourdieu, o poder simbólico é

todo o poder que consegue impor significações e impô-las como legítimas. Os símbolos afirmam-se, assim, como os instrumentos por excelência de integração social. Através da distribuição das diversas formas de capital – no caso da cultura, o capital simbólico – os agentes participantes em cada campo são munidos com as capacidades adequadas ao desempenho das funções e à prática das lutas que o atravessam (Bourdieu apud Correia, 2002, p.18).

A capoeira pode proporcionar aos praticantes tanto a consciência política de seu conhecimento (capital cultural), quanto o respeito da sociedade (capital simbólico) e até a possibilidade de mobilidade social (capital econômico).

Capital simbólico – Conforme o praticante se insere no meio da capoeira, uma mudança importante se processa em seu interior; ele se sente detentor de um capital simbólico. Esse poder se reflete em aumento da autoestima e potencializa o poder transformador desse agente, que geralmente procura passar seus conhecimentos e experiências adiante. “Normalmente, os padrões culturais elaborados e transmitidos socialmente, por intermédio dos processos simbólicos, não só se referem ao indivíduo como também ‘aos demais’, que compartilham da existência de padrões comuns” (Machado, 2004, on line).

Capital cultural – A despeito de ganhar ou não dinheiro, a capoeira retorna em benefício intangível para o indivíduo e sua coletividade. Howell (2004), a respeito de um mestre de capoeira conhecido por ‘Russo’ diz: “Russo, apesar de pobre, é um “intelectual orgânico” respeitado pela coletividade. Já foi à Europa e aos EUA como convidado de honra. Sua formação foi puramente cultural e é um exemplo do potencial sucesso da educação cultural preconizada por Paulo Freire” (p. 21).

É notável como muitos intelectuais brasileiros têm se debruçado sobre a capoeira. Muniz Sodré (2002), discorrendo sobre Mestre Bimba, um dos grandes capoeiristas (ou capoeiras, como também são chamados) do passado, reconhecido post-mortem como doutor honoris causa, afirma: “embora longe do mundo das letras, era uma das figuras mais cultas que já conheci.” E continua, com seu conceito de cultura:

Numerosas culturas tradicionais são basicamente simbólicas, o que equivale a dizer “corporais”, pois partem do corpo para relacionar-se com o mundo. Tal experiência implica uma cultura. De reconhecimento difícil, certo, porque nos habituamos a ver cultura apenas ali onde o conceito e a letra exercem seu mandato de onipotência. Por isso, temos dificuldade em reconhecer a sabedoria do analfabeto ou do pobre, cegos para a evidência de que culto ou sábio (e não erudito letrado) é aquele que produz saber a partir de sua precariedade no mundo (Sodré, 2002, p.68)

Capital econômico – o capoeira tira seu sustento fazendo shows, tocando em bandas, dando aulas, palestras, construindo instrumentos de percussão, escrevendo livros, gravando discos, preparando fisicamente atores de teatro ou cinema. Há uma infinidade de capoeiristas tirando seu sustento da própria arte, no Brasil e no exterior. Vários deles são homens negros sem formação universitária, contudo são respeitados e chamados de ‘mestre’ por alunos de diversas classes sociais, muitos doutores ou mestres em suas respectivas profissões. Pessoas sem instrução acadêmica, discriminadas em sua maioria pela cor da pele e condição social, passam a ser requisitadas para participar de inúmeros eventos, nacionais e internacionais.

A construção da identidade

Buscaremos agora analisar como a capoeira atua na identidade individual e nacional. Para fins didáticos, iremos separar a identidade individual da nacional, sem pretender, no entanto, dicotomizar o indivíduo do social. Machado afirma que:

a noção de identidade foi das mais expressivas conquistas conceptuais das ciências. O seu estudo situa-se no domínio interdisciplinar que concerne a Antropologia, Sociologia, Biologia, Psicologia e Psicanálise. Trata-se de formas de representação individual e coletiva, adquirindo sentido primacial em contextos históricos e sociais definidos, especialmente quando se impõe a alteridade articulada com a cultura e a ideologia. Em última instância, a identidade consiste num fenômeno cultural, ideológico e político. Na realidade, inexiste a noção de identidade fora da estrutura sociocultural. A cultura é um dos fatores determinantes que predispõem o indivíduo à aquisição da identidade, seja social, ideológica ou mesmo política (Machado, 2004, on line)

Falaremos aqui de identidade como um processo dinâmico em torno do qual o indivíduo se referencia, constrói a si e a seu mundo. Para a criança negra, é fundamental a noção de pertencimento em um grupo social em que se veja positivamente afirmada. A escola e a educação formal não têm dado conta de suprir esta necessidade, mantendo o status quo e perpetuando a doença psicológica que é o sentimento de inferioridade. Crianças que não se veem representadas positivamente tendem a criar uma identidade baseada em valores estigmatizados, impossibilitando, dessa forma,

alterar situações de discriminação por meio de atitudes afirmativas quanto as especificidades raciais. (…) A identidade da pessoa negra traz do passado a negação da tradição africana, a condição de escravo e o estigma de ser um objeto de uso como instrumento de trabalho. A cor de pele e as características fenotípicas acabam operando como referências que associam de forma inseparável raça e condição social, o que leva ao afrodescendente a introjeção de um julgamento de inferioridade, não somente quanto ao aspecto racial, mas também em relação às condições socioeconômicas, implicando o favorecimento de uma concentração racial de renda, de prestígio social e de poder por parte do grupo dominante (Souza apud Ferreira, 2000, p. 41-42).

A capoeira, no campo da educação, é rica em símbolos e exemplos positivos. Abundam mestres e professores, afrodescendentes ou não, que julgam primordial o enriquecimento da autoestima das crianças negras por meio do contato com sua herança cultural. Este contato pode favorecer uma tomada de consciência e a mudança de postura por parte do educando, transformando-o em protagonista ativo de sua própria história.

Identidade individual: pertencimento histórico e pertencimento social

Há na capoeira uma interação, em mesmo nível, de pessoas das mais diversas etnias, nacionalidades, religiões, idades e níveis sociais. Muitas rodas (especialmente as de rua) são encontros ecumênicos, multiétnicos e pluriculturais, de pessoas em busca de integração. Como afirma Sodré (op. cit.): “No Brasil, a pedagogia oficial ainda não se deu conta inteiramente das possibilidades de aproveitamento educacional desse jogo para a formação de jovens, cada vez mais moldados pela cultura do individualismo e do isolamento” (p. 81). A capoeira dá ao praticante um senso de pertencimento histórico (ligação com o passado) e social (ligação com o presente).

Pertencimento histórico

Guerreiros africanos, negros escravizados enfrentando a polícia, maltas no Rio de Janeiro desestabilizando o Império. Perseguidos pela polícia, enviados às prisões e a ilhas distantes no Atlântico, atuantes na Guerra do Paraguai, na Abolição. Famosos como Madame Satã, Mestre Pastinha. As músicas de capoeira remetem constantemente ao passado, fazendo releituras constantes de fatos e personagens.

Iê! Tava em casa, sem pensá sem imaginá
Mandaram me chamá, para ajudar a vencer,
A Guerra do ParaguaiQuem quisé tê piedade, vá na grade da cadeia
Muito nego na escura, em volta de uma candeia

Dona Isabel que história é esta, de ter feito a Abolição?
De ser princesa boazinha, que libertou a escravidão?
Abolição se fez com sangue, que inundava este país
O negro transformou em luta, cansado de ser infeliz
Abolição se fez bem antes, ainda por se fazer agora
Com a verdade da favela, não com a mentira da escola.

Segundo Assunção (2005), “uma das razões que fascinam os jovens capoeiristas no mundo todo é a imagem de resistência: contra o senhor de engenho, a polícia, o sistema”. (p. 2). Como fruto desta árvore genealógica, o capoeirista sente-se legítimo herdeiro deste legado, que lhe confere a dimensão histórica de sua existência e de seu papel como agente cultural.

Pertencimento social

Atualmente, a maioria dos capoeiristas faz parte de algum grupo. A palavra grupo é constantemente enfatizada e muitas vezes acompanhada do pronome “meu” ou “nosso”. A ideia de posse dá ao praticante a ideia de pertencimento social, pois ele compartilha não só treinamentos mas também uma visão de mundo semelhante à de seus “camaradas de grupo” e à dos demais capoeiristas.

Capra (1982) faz uma análise das relações sistêmicas, afirmando que a “concepção sistêmica vê o mundo em termos de relações e de integração” (p. 260). No caso da capoeira, isto não poderia ser mais verdadeiro. A noção do grupo como família pode passar a falsa impressão de que esses núcleos são pequenos e independentes. Na verdade, podemos falar de uma rede de conexões mundial, interdependente e conectada, uma verdadeira capoeira network. Pessoas de diversos estados e países fazem parte desse imenso grupo. Há capoeira em todos os estados brasileiros, em todos os cinco continentes, nos EUA, em quase toda a Europa (incluindo o Leste Europeu), em Israel e até no Japão. Essas centenas de milhares de capoeiristas se encontram pelo mundo em eventos, simpósios, rodas, trocando experiências e fazendo novas conexões.

As trocas culturais proporcionadas pela capoeira, uma arte de origem afro-brasileira, podem ajudar a criança negra a se ver inserida num contexto amplo, em que suas peculiaridades são aceitas e admiradas.

Identidade nacional

Segundo Machado (2004), “após o último pós-guerra, a questão da identidade cultural, acrescida do adjetivo “nacional”, transformou-se em bandeira ideológica dos Estados emergentes. Realmente, a problemática da identidade surge como forma reativa a séculos de privação cultural, apropriação econômica e opressão social” (on line). Procuraremos aqui refletir brevemente sobre o papel da capoeira na construção da identidade nacional.

A capoeira foi utilizada pelo Estado Novo e pelo regime de 68 como um dos símbolos da pátria, com o objetivo de criar uma ideologia nacional. Ao mesmo tempo, contudo, o capoeirista se apropriou desse discurso e se transformou no detentor de um saber que, de desprezado e discriminado, passou a único e precioso. A consequência prática mais interessante dessa apropriação é que o capoeira, ao mesmo tempo que foi e ainda é marginalizado por muitos, paradoxalmente simboliza a própria cultura nacional e é por isso valorizado.

Desenvolvimento

História da capoeira

A origem da capoeira é incerta. A tradição oral apresenta diversas versões, desde uma suposta ligação direta com determinados rituais africanos, como a “dança da zebra” e o “N’golo”, até uma versão romântica, em que o africano teria desenvolvido a capoeira como luta nas senzalas e a disfarçado em dança para evitar a vigilância dos senhores. As modernas pesquisas levam a desmistificar versões simplistas (Assunção, 2005). É provável que a capoeira tenha se originado num processo de vários séculos, como uma síntese espontânea das diversas formas de cultura corporal trazidas até aqui por diversos povos africanos, influenciada também, em menor escala, pelas culturas indígena e europeia.

Durante o Império e a República Velha, a capoeira sofreu dura repressão. Foi criminalizada no Código Penal de 1890 e somente liberada em 1934. Durante 44 anos, praticar capoeira foi crime. Como bem explica Filgueira (2003): “Devido à sua origem subalterna, a capoeira foi tratada como prática marginal até ser incorporada pelo Estado Novo como um símbolo de identidade nacional. Vargas, em 1954, apresenta a capoeira como ‘o único esporte verdadeiramente nacional’” (on line).

Sabemos que um dos intuitos do Estado Novo era formar uma “nação brasileira”, hermeneuticamente construída, isto é, baseada em símbolos de fácil identificação por parte da sociedade.

Com o passar do tempo, a cultura negra da capoeira se incorporou à sociedade e passou a influenciar a dança, as artes marciais, o esporte, a música e a literatura. Em contrapartida, sofreu influências e absorveu modificações que a descaracterizaram, transmutando-a em bem de consumo, regrada e institucionalizada. Não era mais o malandro a “vadiar” sua brincadeira na rua, entre a cachaça e a prostituta, e sim o atleta numa academia treinando seu esporte.

Não cabe neste estudo se estender a respeito da história, das tradições, dos estilos ou da institucionalização da capoeira, pois muito já foi escrito sobre esses temas. Cabe, porém, ressaltar que nunca o capoeirista foi passivo diante dessas mudanças. Pelo contrário; independente de sua predileção pessoal, sempre se aproveitou para delas obter os maiores benefícios, sejam eles em termos de capital simbólico ou econômico.

Atualmente a capoeira divide-se em várias correntes. Muitas vezes os membros de uma tendência clamam para si o mérito de “tradicional”, “contemporânea”, “pura”, “inovadora” etc., mas todas partilham a ideia de uma arte baseada na cultura africana e ferramenta de luta contra a opressão, a marginalização e o racismo. Para o educador cultural de capoeira, é vital o entendimento de que sua função social não se restringe ao campo do movimento, é sua obrigação perpetuar o legado da capoeira na luta contra a discriminação.

O primeiro passo, portanto, é a aceitação da alteridade no próprio meio da capoeira, ou seja, enxergar todos os estilos e tendências como facetas complementares, não-excludentes. Como um caleidoscópio em que diversas cores e formas compõem o quadro final, transformando-se ao sabor do movimento.

O segundo passo é promover ações, atitudes e reflexões intencionais que valorizem a cultura negra, sem, no entanto, cair na armadilha de discriminar as contribuições das demais culturas.

A escola brasileira

É urgente a necessidade de discutir abertamente o mito da democracia racial brasileira e valorizar a identidade negra no país. Isso é essencial para que haja o aumento da autoestima das crianças afrodescendentes e para que todos, independentemente de sua origem, possam se beneficiar de uma visão de mundo pluralista, que aceite a alteridade como complemento.

Historicamente, e como não podia deixar de ser, a escola vem reproduzindo a ideologia racial vigente no Brasil, ou seja, o mito da democracia racial, a suposta “índole pacífica” do povo brasileiro, a noção de que o preconceito é social e não racial.

A escola é, por excelência, a instância transformadora que, segundo Paulo Freire, tem a obrigação de se posicionar pela mudança: “se a educação não pode tudo, alguma coisa fundamental a educação pode” (Freire, 1996, p. 112). Infelizmente, a escola brasileira tem se furtado a esse dever. Privilegiando um enfoque eurocêntrico, incute, nas crianças negras, um sentimento de inferioridade; e, nas crianças brancas, um sentimento tão nocivo quanto, o de superioridade, naturalizando assim concepções de identidade doentias.

Somente nos últimos anos, iniciativas, muitas ainda tímidas, vêm sendo postas em prática. A escola pública, cujos alunos são majoritariamente afrodescendentes, deve ter preocupação dobrada por propor uma educação pluralista. Não se trata de mudar o foco de uma visão eurocêntrica para uma afrocentrada, mas sim de abrir o leque para a diversidade. Trata-se de reconhecer uma educação afroincludente.

Resultados

A Capoeira, como ferramenta educacional, está perfeitamente sintonizada com o moderno debate da interdisciplinaridade. Ela atua nos campos da Arte, da Música, da Educação Física, da História e se encaixa em muitos dos temas transversais.

O educador deve utilizá-la como meio para, a partir dos cânticos, da dança e da luta, estabelecer um elo entre a criança brasileira e sua ancestralidade africana.

Encarada aqui como prática transformadora, a Capoeira deverá atingir metas maiores que as já propaladas habilidades físicas, artísticas e sociais:

  • Crianças desde a pré-escola podem ser educadas a viver na diversidade. Debates, pesquisas e, principalmente, atividades lúdicas são meios de o educador alcançar esse objetivo.
  • O ensino de História pode partir do próprio corpo do educando. Levando em conta que a criança apreende o mundo através da experiência concreta, a capoeira se revela um meio privilegiado de aprendizagem corporal. Essa nova relação de ensino-aprendizagem é quase inexistente na escola brasileira.
  • A atividade física lúdica, guiada por reflexão e debate com os alunos, revela-se ferramenta inestimável para o educador.
  • O jogo da capoeira pode servir como mola-mestra para o jogo dramático. A possibilidade de vivenciar dramaticamente e sentir empatia com os personagens interpretados auxilia enormemente na aprendizagem e na capacidade de reflexão.

Jogo dramático

Pode-se dramatizar situações relacionadas à capoeira como:

  • A vida nas diversas sociedades africanas. Um aluno pode ser um griot, ancião responsável pela manutenção da cultura oral, que conta histórias dos antepassados e propõe atividades como danças ou lutas que se assemelhem à capoeira.
  • Simular a chegada do europeu na África, do ponto de vista tanto dos visitantes quanto dos africanos.
  • Vivenciar, num espaço apertado e quente adaptado para “navio negreiro”, quanto tempo os alunos conseguem permanecer uns amontoados sobre os outros. Discutir como se sentiram e imaginar como seria se tivessem que fazer uma viagem de semanas dessa forma.
  • Interpretar uma fuga em massa, a construção de um quilombo, personagens heroicos como Zumbi dos Palmares.

Atividades físicas

Jogos como cabra-cega, esconde-esconde e pique-bandeira podem ser adaptadas ao ensino de História por meio da capoeira. Dezenas de outros jogos podem ser adaptados ou criados, dependendo da faixa etária das crianças, do material disponível e da sensibilidade e da imaginação do educador. O ideal é que as crianças participem do processo de criação dos jogos a partir dos conhecimentos adquiridos nas pesquisas e debates.

Caçada noturna (cabra-cega)

Objetivo: Apresentar as habilidades dos caçadores africanos em caçadas noturnas.

Desenvolvimento: Relacionando os conhecimentos prévios das crianças sobre animais típicos do continente africano, cada aluno interpretará um, emitindo seu respectivo som. O caçador, vendado, deve-se guiar pelos demais sentidos para pegar sua presa. O animal que for pego troca de lugar com o caçador.

Resgate (Esconde-esconde):

Um aluno é o capitão-do-mato e os outros são os africanos escravizados. O capitão-do-mato deve procurar os fugitivos, e estes, se descobertos, podem se defender com movimentos de capoeira. Porém, se encostados pelo capitão, são devolvidos à fazenda, devendo lá permanecer até serem resgatados pelos companheiros.

Quilombo (½ Pique-bandeira)

Objetivo: Interpretar as lutas dos quilombolas de Palmares contra os bandeirantes.

Desenvolvimento: Separam-se dois times em campos opostos: o dos quilombolas e o dos bandeirantes. No campo dos quilombolas haverá um espaço denominado “Casa de Zumbi”. O objetivo dos bandeirantes é invadir esse espaço; o dos quilombolas é defender Palmares, capturando os invasores. Sempre que um bandeirante for pego ele deve “pagar uma prenda” escolhida pelo grupo. Caso a “Casa de Zumbi” seja invadida, o jogo acaba e invertem-se as posições.

Considerações finais

O educador cultural deve se posicionar dentro da escola e dos demais ambientes educacionais no sentido de cobrar e promover ações com professores e alunos em que se discutam valores e atitudes visando à reformulação do currículo racista, à mudança de atitudes, ao debate aberto em relação a temas tabus como discriminação e preconceito racial.

A omissão pode ser tão nociva quanto a ação racista, pois se posiciona pela reprodução desta. O educador cultural não deve ser apenas um apêndice dentro da escola, dando sua “aulinha de capoeira” e indo embora. Não pode ser neutro em questões como preconceito, seja de etnia, religião, gênero ou classe social.

Sem fazer da sala de aula um espaço de militância político-partidária ou ideológica, o professor deve utilizar sua profissão em prol de uma prática crítica e transformadora.

Referências

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